segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gangue especializada em explodir caixas contava com ajuda de PMs Imagens inéditas mostram a ação dos bandidos logo depois das explosões. Polícia Civil de Santos prendeu 11 suspeitos de pertencer à quadrilha.

Na maioria das vezes, os bandidos cometem crimes e a polícia persegue as quadrilhas. Mas, no litoral de São Paulo, uma exceção a essa regra: uma gangue especializada em explodir caixas eletrônicos contava com a ajuda de policiais militares. Não sobrou nada da agência bancária depois da explosão de três caixas eletrônicos. Os vidros foram estilhaçados, parte do forro do teto caiu. A perícia só encontrou ferro retorcido: “As cassetes foram retiradas pela parte de trás”. Imagens inéditas mostram a ação dos bandidos logo depois das explosões. Os ladrões estão na parte de trás de um dos caixas eletrônicos. Levam todo o dinheiro que podem. Poderia ser apenas mais um roubo. Mas este é diferente: policiais militares fazem parte do bando. PM: Escutou daqui hein. Assaltante: Escutaram daí? PM: Aham Assaltante: Escutou? PM: Escutou. Assaltante: E agora, vocês vão querer sair daí? PM: Não, não. Está suave ainda, não caiu nada. Do lado de fora, de dentro das viaturas, onde deveriam estar trabalhando, os policiais acompanhavam a frequência do rádio da PM. Vigiavam a própria polícia. O assalto faz parte de uma série praticada pela quadrilha, desde abril, na baixada santista, litoral sul de São Paulo. O grupo foi investigado durante seis meses. O Fantástico teve acesso exclusivo ao conteúdo desse levantamento. “Eles agiam com a PM, no dia em que o policial estava de serviço. Dessa forma, facilitando, ou tendo a participação do Estado nesse retardamento da ação”, ressaltou Luiz Henrique Ribeiro Artacho, delegado. Outro roubo aconteceu em 5 de setembro, em Itanhaém. Gravações telefônicas, autorizadas pela Justiça, revelam intimidade entre os ladrões e policiais. Minutos antes de explodir os caixas, eles conversavam por celular. De repente, ao fundo, se ouve o rádio da central de comunicação da PM , o Copom. PM: E aí? Assaltante: E aí o quê? PM: Está faltando o que pra ‘nóis’ ir? Assaltante: Bora... Barulho rádio ao fundo: Ô 34 é uma solicitação aí da... Em outra gravação, o policial militar, dentro da delegacia, atende a ligação do assaltante. PM: E aí, filhão? Assaltante: Passa lá naquele lugar da última vez? PM: Agora nem tem como passar, eu estou na Delegacia. Ó, eu vou te falar, está todo mundo aqui. Tem duas aqui e uma está lá no PS. E a outra que está fechada com ‘nóis’ está na rua, mas está fechada com ‘nóis’. Tudo era negociado. PM: O menino falou, vai fechar aquele esquema mesmo, as 4 e 3? Assaltante: Não, é duas mesmo. PM: Duas Mesmo? Danilo: É. Senão, ninguém nem consegue comprar uma camisa. PM: Não, sem problemas. Quatro e três era o número de viaturas que poderiam dar cobertura ao assalto. No fim, acertaram que seriam apenas duas. Policiais e bandidos usam o mesmo linguajar, cheio de gírias. Polícia: Essa fita de ficar se trombando para trocar ideia é embaçado porque se alguém vê, alguma câmera pegar, o bagulho fica louco né? Nos telefonemas, os policiais conversavam sempre com um mesmo integrante da quadrilha, chamado: Danilo. Danilo Queiroz da Cruz morava na periferia de Praia Grande. Segundo a investigação, ele era o contato dos bandidos com os policiais militares. Na casa de Danilo, os investigadores encontraram notas de R$ 2 dentro de envelopes para depósito. Eles apuram se esse dinheiro veio dos caixas roubados. Toda a investigação começou em abril, a partir de um roubo a um caixa eletrônico, em Praia Grande. Em imagens que você vê no vídeo, os ladrões entram pela porta de vidro. Rapidamente, quebram os caixas e colocam detonadores. A explosão acontece. Uma nuvem de fumaça cobre o lugar. O assalto dá certo. Minutos depois, policiais militares aparecem. A polícia investiga se esses são os mesmos policiais que estavam em contato direto com os ladrões. Esta semana, a Polícia Civil de Santos prendeu 11 suspeitos de pertencer à quadrilha. Quatro deles são policiais militares. Os soldados: Willian Bandeira Tamiarana, está há 21 anos na PM; Adailton Andrade Chaves, 9 anos; André Augusto Gonçalves de brito, 6; e o sargento Rodrigo Cisti Guedes, está há 9 anos na Polícia Militar. “Esses policiais nunca tinham respondido processo. Então a gente vê que é a facilidade, a oportunidade acaba fazendo o ladrão. Por que furto de caixa eletrônico? Porque eu não preciso ir lá com fuzil, não preciso ir lá para ameaçar pessoas, não vou ter resistência”, afirmou Marcelino Fernandes da Silva, da Corregedoria da Polícia Militar. Sexta-feira (20), a Justiça decretou a prisão preventiva dos policiais e de outros seis integrantes do grupo. Uma das investigadas presa com a quadrilha vai responder as acusações em liberdade. O cientista político Guaracy Mingardi, especializado em segurança pública, avalia que o envolvimento de policiais com criminosos está ligado ao corporativismo dentro da instituição. E que todas as transgressões, mesmo as pequenas, devem ser combatidas. “É um número pequeno de policiais, não são todos que fazem isso, nem é a maioria. Mas eles sujam toda a corporação. O espírito de corpo de uma instituição policial não pode aceitar nenhuma corrupção, nem que seja pequena, porque se aceita pequena, acaba levando corrupção grande”, destaca ele destaca. FONTE ;G1.COM.BR

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