terça-feira, 7 de abril de 2015

Professor de judô impede corte de jabuticabeira para transplantá-la em seu terreno

Uma grande operação foi montada para transportar a árvore frutífera que fez parte da infância do professor
Dizem que ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore garantem realização pessoal ao longo da vida. Era possível ver a satisfação no rosto do professor de judô Geraldo Brandão de Oliveira, de 64 anos. No início desta semana, ele, que tem três filhos e quatro netos, plantou uma árvore, mais especificamente, uma jabuticabeira. O ato, que parou a vizinhança do Bairro São Geraldo, na Região Leste de Belo Horizonte, foi feito de maneira inusitada. No lugar de mudas, uma árvore adulta com cerca de 2,4 toneladas. Saem de cena as pás e ganha espaço um guindaste para retirá-la de onde esteve por mais de seis décadas e replantá-la no seu quintal.
A casa de Geraldo Brandão fica ao lado do terreno onde estava a jabuticabeira, onde, segundo ele, serão erguidos empreendimentos comerciais. Do segundo andar, todos os dias, o professor contemplava a árvore de tantas lembranças. Um caso de amor que também demonstra a profunda relação que um menino pode estabelecer com uma árvore, como é o caso de Geraldo Brandão e a jabuticabeira. Ao virar literatura, a simbiose encantou no romance infantojuvenil Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos. Na segunda-feira, ao ver a árvore com cerca de 8 metros de altura sob o risco iminente de ser cortada, ele não ficou quieto. “Iriam matar uma das árvores mais antigas do bairro. Quando ouvi o barulho da motossera, rapidamente consegui a autorização. Dizem que vão construir um mini-shopping e prédios de apartamento”, afirma. Primeiro, comprou a jabuticabeira, mas se viu, às voltas, com a tarefa de levá-la para casa. Uma missão nada fácil e que exigiu operação engenhosa. Carregar raiz, tronco, galhos, copa e folhas que somavam 2,4 toneladas, é trabalho para um jardineiro habilidoso. Mesmo sabendo o quão complexa era a empreitada, Geraldo deixou a voz do menino falar e arquitetou o plano para transplantar a jabuticabeira para o seu quintal. Se plantar uma muda requer trabalho, com a preparação da terra, furar o buraco para receber a espécie, o replantio de uma árvore de cerca de 8 metros requer esforço muito maior. Geraldo pagou um caminhão para transportar a árvore e um guincho para colocá-la na terra. Toda a operação custou R$ 1,3 mil, sendo R$ 500 para comprar a jabuticabeira com mais de 60 anos e, R$ 800, para custear o transporte e o guindaste para plantar. “Foi um auê. A metrópole do São Geraldo parou para ver”, brinca. Para colocar a raiz, foi preciso abrir um cova com cerca de 2 metros de diâmetro. Dois dias de trabalho, desde a retirada da árvore do quintal de uma das casas mais antigas da rua Itaité. Também foi preciso muita habilidade para erguer a jabuticabeira sem atingir a rede elétrica. Depois que a árvore foi içada e passou por sobre o muro, ainda era preciso colocá-la no buraco, o que foi feito pelo guindaste. Árvore adulta com cerca de 2,4 toneladas foi transportada para o quintal do professor de judô Majestosa No dia seguinte, ainda bastante úmida, a terra é a única pista que revela que aquela árvore não cresceu ali. Majestosa, ela é maior do que outros pés de jabuticaba que já estavam no quintal, mas a convivência é bem harmônica a julgar pela atenção dos moradores que passou a receber. No quintal, já tem pé de mexerica, romã, caqui, abacateiro, bananeira e jabuticaba. Os micos pulam de galho em galho, passando de uma a outra, com muita desenvoltura. Geraldo Brandão considera que o “progresso não pode apagar a memória do bairro”. “É algo tradicional. Quanto tempo leva para crescer uma jabuticabeira, 15 ou 20 anos? Penso que se você corta uma árvore, deveria estipular um replantio”, diz. Geraldo Brandão conta que cresceu vendo a jabuticabeira. “Vim morar no bairro quando tinha 11 anos e ela já estava lá”, disse. Na infância, a jabuticabeira era o sonho de consumo da garotada da rua, mas o dono da casa não permitia que eles entrassem para pegar os frutos. No casa onde foi criado, ele construiu também uma academia de judô, onde um terço dos alunos recebem bolsa como parte de um projeto social. Cerca de 80 meninos que fazem as aulas de judô poderão, entre um treino e outro, descansar às sombras da jabuticabeira e, na temporada, deliciar com as frutas que fazer a alegria de pessoas em qualquer idade. Brandão tem a certeza que parte de sua infância não ficará apenas nas fotografias e o vídeo que ele produziu. Sempre que quiser, poderá se recostar na jabuticabeira em seu quintal. FONTE:WWW.EM.COM.BR

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